642 coisas sobre as quais escrever: 29


Sempre fui uma pessoa mesquinha, nunca gostei de dividir minhas coisas e deixar as pessoas mexerem nelas. Eu não era assim sem motivo, eu era assim por ter nascido em família muito humilde, onde eu nunca tive quase nada, e depois que eu me casei e o meu marido começou a me dar as coisas eu comecei a ser assim, então não pense mal de mim, e se pensar, pouco me importa, já estou morta mesmo!

Quando eu morri deixei para meu único neto, uma pequena e singela herança, um livro com um bilhete na capa, “leia-o por favor”. Deixei essa pequena herança para ele pois meus filhos com certeza nem estariam ligados para isso, e sim para minha grande casa colonial em um bairro antigo e nobre da cidade, e sem dizer nas outras casas e apartamentos.

Meu neto estava passando por muitas necessidades, ele havia sido despedido de seu emprego, ah, ele é engenheiro civil em uma empreiteira aqui na cidade. Ele não pediu ajuda para seus pais, pois mal falava com eles, mal falava com toda a família, por causa do quão mesquinhos eles haviam sido quando eu parti, ele era o único que gostava realmente de mim, o único que realmente chorou pela minha morte, o único que mereceu o que havia recebido de herança.

Eu sempre gostei de joias, sempre mesmo, desde pequena, mas nunca tive, só depois de casada. Meu marido me dava cada joia... uma a cada aniversário de casamento, ele era muito romântico, comigo e com meia dúzia da rua, mas sempre cumpriu com os seus deveres como pai e esposo; nunca deixando faltar nada tanto a mim quanto aos filhos. No nosso aniversário de 35 anos de casados ele havia me dado um colar de esmeraldas juntamente com os brincos e um anel lindíssimo que ele havia comprado, escondido de mim, em uma joalheria em Londres, em uma viagem bem próxima dessa data tão especial.

Já fazia mais de meses que Túlio, meu neto, nem se quer se lembrava daquele livro mais, eu com todas minhas forças falava “leia o livro, leia o livro! ”, mesmo sabendo que ele não me ouviria eu falava, vai que né... ele ia de mal a pior, já apreenderam até o carro dele, o condomínio estava atrasado a não sei quantos meses, só não morria de fome por conseguir fazer uns bicos em alguns projetos de amigos que o contratavam por caridade. 

Ele não era um profissional ruim, apenas estava numa fase difícil, e ainda para ajudar aquela mulher dele, aquela tal de Amanda, que só desgraçou com a vida do meu neto, sempre querendo mais e mais, sem dizer que ela não valia o prato que comia. Nunca gostei dela, desde que os dois começaram a namorar eu achava ela antipática e sem graça, sem sal sabe, mas eu em nenhuma vez falei mal dela pro Túlio, afinal ele havia escolhido viver ao lado dela, mas que ele podia arrumar coisa melhor ô se podia.

O livro que eu havia deixado para Túlio era grosso e tinha o título de Clássicos da Literatura Mundial, havia nesse livro umas 10 obras, ele tinha fontes bem miúdas e uma capa muito bonita, com letras douradas sobre uma capa na cor verde, coisa mais linda; nem se produz mais livros como aquele. Eu nunca o li, mas ele devia ser bom, eu só esperava que ele lesse o livro, folheasse, alguma coisa, só isso.

Até que um dia a ridícula da Amanda foi fazer uma geral para vender o que não se usava mais naquele apartamento, foram encaixotadas várias coisas para a venda, mas ela esperou o meu neto chegar para ver o que era dele e se ele queria vender ou não.

-Chuteira?
-Pode vender.
-Óculos de Sol?
-Pode vender.
-Livros?
-Pode vender.

Até que quando ela estava colocando os livros na caixa aparece o livro que eu havia dado para ele, e ele o tira da mão da Amanda.

-O livro que a vovó me deixou...
-Túlio por favor né, vai ficar com essa velharia que você nem vai ler?
-Mas a vovó deixou pra mim, é uma lembrança dela.
-Olha só amor, quando a pessoas se vai a gente guarda ela no peito e em pensamentos, não em objetos.
-Tá bom então, pode levar...

Ela leva as coisas para vender pela cidade na mesma tarde que ela as selecionou, passou em diversas lojas que compram usados, até que ela vai a um sebo e tenta vender o livro que dei para meu neto. Mas graças a Deus eles não quiseram comprar, disseram que livros antigos que nem aquele as pessoas não se interessavam. 

Amanda sai de lá com raiva, dava pra ver pelo rosto daquela nojenta.
-Velha imprestável, nem pra deixar alguma coisa que valha a pena.- e atira o livro em uma lixeira em frente ao sebo.

Garota dissimulada, nem para levar de volta pro meu neto, eu sempre disse que ela não vale o prato que ela come, mas fazer o que, já tá feito, e eu não posso fazer nada para mudar isso...

Havia se passado alguns minutos desde que a sirigaita tinha ido embora e um mendigo passa pela rua, e para na lixeira e pega o livro, achando-o muito bonito e o abre. Ele acha dentro do livro meu colar, brincos e o anel de esmeraldas. Ele dá pulos de alegria, como que se tivesse achado um tesouro, e achou. Fiquei muito mal por causa disso, as joias deveriam ser encontradas pelo Túlio, ele iria vende-las e pagar suas dívidas. Mas fazer o que, tá feito, e eu não posso fazer nada para mudar isso.




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4 comentários:

  1. Respostas
    1. Obrigado, fico feliz que tenha gostado!
      Abraços!

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  2. Você escreve tão bem, estou amando ler tudo isso. Já posso virar fã? hahaha Parabéns pelo blog!

    Beijos
    http://cafevodkaeliteratura.blogspot.com.br/

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